Crescer entre sons e palavras
Por Adriana Fiore — 29/09/2026

Tem palavras que parecem pequenas para nós, mas que são enormes para uma criança. “Bicicleta”, por exemplo. Para um adulto, é só uma palavra. Para uma criança de três anos, pode ser um verdadeiro desafio: são várias sílabas, diferentes sons e muitos movimentos que precisam acontecer em sequência, com precisão e rapidez. E é justamente por isso que, nessa fase, algumas palavras ainda podem sair “do jeitinho da criança”.
Às vezes, uma sílaba desaparece. Um som é trocado. Outro é simplificado. E aquela palavra que conhecemos tão bem ganha uma versão própria na fala da criança, muitas vezes tão encantadora que dá até vontade de deixá-la daquele jeitinho.
Não precisamos corrigir a criança a todo momento. Mas isso não significa deixar de oferecer o modelo correto. Se ela disser “biciqueta”, podemos acolher o que foi dito e responder naturalmente: “Isso, a bicicleta! Vamos andar de bicicleta?” Sem pedir que repita e sem apontar o erro; apenas mostrando, dentro da conversa, a forma correta de dizer.
Falar exige muito mais do que saber o nome das coisas. A criança precisa organizar sons, planejar movimentos, coordenar língua, lábios, mandíbula, respiração e voz. Tudo isso acontece em uma velocidade impressionante, e ninguém aprende essa sequência de um dia para o outro.
Primeiro, vêm produções mais simples. Depois, combinações maiores. Aos poucos, os movimentos ficam mais precisos, as palavras ganham clareza e aquilo que antes parecia difícil começa a sair com mais naturalidade.
Por isso, é importante tomar cuidado com a expectativa de que uma criança pequena já precise falar tudo perfeitamente. O que precisamos observar é o caminho: a fala está ficando mais compreensível? A criança está conquistando sons novos? Existe evolução ao longo dos meses?
Esses sinais dizem muito mais do que uma palavra isolada. Porque falar não é passar em uma prova. É se comunicar, contar o que aconteceu, pedir, chamar, brincar, dividir uma ideia e conseguir se fazer entender.
As trocas merecem um olhar mais cuidadoso quando a fala permanece muito difícil de compreender, há muitas omissões ou trocas, a criança se irrita por não conseguir ser entendida ou percebemos pouca evolução ao longo do tempo. Nesses casos, uma avaliação fonoaudiológica pode ajudar a compreender melhor o processo.
Desenvolvimento precisa de tempo. Hoje pode ser “biciqueta”, depois “bicicreta”, até que um dia venha “bicicleta”. Essa é uma das belezas do desenvolvimento da fala: perceber o crescimento acontecendo diante dos nossos ouvidos.
Conteúdo publicado originalmente em Revista Crescer. Autoria e direitos pertencem à publicação original.
